Oftalmologista fala sobre as possibilidades existentes hoje em dia de tal método

Indubitavelmente, toda profissão tem suas ações nobres. Posso afirmar, com certeza, que realizar um transplante de córnea bem sucedido é a função que mais realiza e enobrece os especialistas em visão. Trata-se de uma conquista humanitária que nos proporciona sensação de dever cumprido. Entretanto, para podermos cumprir com essa nossa missão, dependemos da ação solidária das famílias: o ato da doação.
A oferta de doadores de córneas não preenche a demanda atual de pessoas que permanecem por volta de 15 meses em compasso de espera em uma lista. Atualmente, no Brasil, são quase 25 mil pessoas que esperam pelo tecido. Só em Campinas, são 579 cidadãos e cidadãs que permanecem na longa expectativa. Uma coisa é certa: faltam informações à população que esclareçam os aspectos relacionados à doação com o objetivo de diminuir a recusa familiar. Para que fique claro: não existe retirada de nenhum órgão ou tecido de uma pessoa falecida sem que sua família aprove tal intervenção.
Por isso, é extremamente importante que as pessoas conversem sobre o assunto doação e transplantes, para que todos conheçam o seu desejo no caso de seu falecimento. Pesquisa realizada com familiares de doadores de órgãos e tecidos na Universidade Federal de São Paulo apontou que 63% conheciam o desejo prévio de doação do falecido e, destes, 90% declararam que esta ciência foi importante na tomada da decisão. Portanto, sempre que tiver oportunidade, converse com seus filhos, pais, esposa ou marido sobre essa possível intenção, sobre a solidariedade do ato da doação, sobre inseguranças e incertezas que costumam envolver o tema.
O medo que o órgão ou tecido não chegue a quem realmente precisa é a principal razão pela negativa de muitas famílias ao ato de doar órgãos e tecidos de seus entes queridos. Desconhecer o processo que norteia os transplantes no Brasil, tabus como tráficos, discussões religiosas ou não saber o desejo do falecido também fazem com que grande parte das famílias opte por dizer não à doação. E esse ciclo só faz aumentar a pior inimiga dos transplantes: a gigantesca fila de espera.
Para quem não sabe, diferente do que ocorre na captação de tecidos vascularizados, como rim, coração e pulmão, para que se efetue a doação de córnea não é preciso que o doador tenha sofrido morte cerebral. O tecido pode ser captado até seis horas após o óbito, por qualquer que tenha sido a causa. Além disso, qualquer pessoa pode doar, desde crianças até quem tem mais de 70 anos.
E embora muita gente não saiba, o transplante de córnea é muito antigo. O primeiro data de 1938, nos EUA. Lembrando ainda, que o Instituto Penido Burnier, aqui de Campinas, realizou a façanha já em 1939. Passados todos esses anos de aprimoramento da tecnologia, a incidência de complicações realmente é muito baixa.
Temos fé que o sentimento de solidariedade da doação cresça cada dia mais entre as pessoas. Sabemos que existe uma motivação para o ato baseada no desejo da continuidade da vida do familiar que já se foi no outro. Em 2005, foram realizados 349 transplantes em nossa cidade, sendo que 241 córneas foram captadas pelo Banco de Olhos de Campinas, entidade que existe há 25 anos, que possui todos os requisitos necessários junto ao Ministério da Saúde Brasileiro, mas trabalha com dificuldade. Para que a fila de espera seja realmente diminuída ou até mesmo extinta, é necessário que os Bancos de Olhos de todo o Brasil possam trabalhar com mais incentivo do Poder Público junto aos locais onde realmente terão córneas à disposição.
Esse trabalho de conscientização junto às famílias deve ser feito não só nos hospitais, mas também junto aos necrotérios e no Instituto Médico Legal. Nossa luta é para conseguir esses incentivos, conseguir mais pessoal capacitado para essa abordagem tão delicada junto às famílias.
Participar do processo de voltar a enxergar de um paciente é uma sensação única. O bom exercício da medicina exige conhecimento técnico de seus profissionais, mas também pede médicos dotados de compaixão, de lealdade, de humanismo para com o paciente.
Aproveitamos a divulgar para maiores informações o novo website (URL) do Banco de Olhos de Campinas: www.bancodeolhosdecampinas.org.br. Visite-nos!
* Leôncio Queiroz Neto é médico oftalmologista, especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, Diretor Médico do Banco de Olhos de Campinas, titular do Instituto Penido Burnier, de Campinas/SP, oftalmologista do Hospital Israelita Albert Einstein.