Rigor da legislação brasileira e forma de aplicar exame oftalmológico ferem o direito de trafegar de muitos idosos em condições de dirigir
Nossos olhos são como câmaras fotográficas que com suas lentes captam as imagens do mundo e as mandam ao cérebro, onde se processa a visão. Quando dirigimos um automóvel, 90% das informações necessárias para conduzi-lo são obtidas visualmente, por meio de nossas “câmaras fotográficas”. Certamente, para que nossos olhos cumpram seu papel quando estamos à direção, é preciso que haja luz. Além disso, é necessário que nossa máquina de enxergar esteja sem nenhum “defeito” que a impeça de funcionar regularmente. No Brasil, a legislação é bem exigente com relação ao funcionamento da visão. Por aqui, exige-se acuidade e campo visual maior do que em outros países, que não são tão rigorosos com a anatomia da visão e talvez mais atentos com quesitos tratados com menos atenção em nosso País.
São outras informações físicas e mentais, igualmente importantes, que podem interferir na capacidade de guiar primando pela sua própria segurança, de pedestres e de outros motoristas. A avaliação oftalmológica tem sido, ao longo de vários anos, tratada com privilégio, quando informações neurológicas, auditivas, motoras e cardiológicas acabam vindo, digamos, em segundo plano. Isso porque essas informações são fornecidas pelo próprio candidato à motorista e são baseadas em questionário respondido de próprio punho que, sob pena de responsabilidade, tem a obrigação de fornecer dados de sua saúde relevantes ao exame físico e mental. Avaliação de respostas de um questionário é uma forma muito simplista de se avaliar a saúde de alguém. A prova disso é que a OMS (Organização Mundial da Saúde) coloca o Brasil entre os países onde há mais mortes no trânsito em todo o mundo.
Diabéticos insulino-dependentes, hipertensos, usuários de medicamentos que alteram o estado de vigília, sem contar, é claro, o uso de álcool, drogas e os portadores de doenças psicológicas sérias, tudo isso pode comprometer a direção segura nas ruas e estradas. Mal intencionados, ao serem avaliados pelo perito com relação à aptidão ao volante, “escondem” que usam determinada medicação, cujos efeitos colaterais podem ser vigorosos. Há ainda, os que omitem determinadas doenças. Contudo, outros que erram uma pequena letra no exame oftalmológico poderão ter interrompido seu direito de ir e vir. Não se trata, evidentemente, de permitir que cegos possam conduzir veículos. Quem não ficou com as mãos suadas na seqüência do cinema em que Al Pacino, no papel do inesquecível coronel aposentado e cego, em Perfume de Mulher, decidiu dirigir em Nova York? De qualquer forma, há que se ponderar que entre a cegueira e a visão útil há uma enorme distância, que merece sim, mais atenção por parte dos legisladores. Filtrar candidatos com a saúde emocional e psicológica abaladas deve ser critério tão ou mais importante para testar os candidatos à carteira de habilitação. Histórias de motoristas nervosos que brigam, perseguem até matam devido ao desempenho de outro condutor são exemplos de desequilíbrio emocional que deveriam ser mais bem calculados.
Avaliação aos idosos também deve merecer cuidado adequado. O exame oftalmológico que não é feito pela carta de Snellen (aquele das letras no cartaz, que ficam na parede) e que é realizado através de módulo eletrônico automatizado, fazem com que os avaliados tenham que ficar em pé e visualizar as letras através de um tubo. Alguns idosos, constrangidos, não compreendem a dinâmica desse exame e podem se confundir. Claro que isso não os incapacita ao volante. Temos que citar também, as pessoas da terceira idade que possuem alguma incapacidade oftalmológica que podem ser perfeitamente contornada com uma restrição à carteira para dirigir à noite ou em rodovias, por exemplo. Isso é uma forma de garantir-lhe mais tempo de independência e liberdade. Pode então, esse idoso, continuar seguindo pela cidade, adiando o sentimento da inexorabilidade do tempo. Sabemos que o dano cognitivo, bem como a diminuição da acuidade visual, tem reflexos iminentes com o passar da idade, mas ambos podem ser contornados com uma restrição, no caso da carteira de habilitação. Por isso, a importância da redução do intervalo dos exames médicos para a renovação do documento, na medida em que a idade do condutor aumenta. Contudo, um idoso bem avaliado, responsável e saudável será - certamente - menos perigoso no trânsito do que um indivíduo jovem e com vitalidade, mas imprudente quando o assunto é álcool ou drogas. Ou mesmo aqueles que menosprezam doenças importantes, como epilepsia, doenças ou cirurgias cardíacas, dificuldades motoras, e, sem aval do médico, passam a ser um perigo nas ruas, avenidas e estradas. E, apenas para citar o maior perigo das vias rodoviárias, o uso do medicamento estimulante conhecido como “arrebite” pelos profissionais do volante, cujo efeito colateral desejado é a perda do sono, e que pode provocar efeito contrário e deixar a viagem muito mais perigosa. Um levantamento da Polícia Rodoviária Federal mostra que, entre 2002 e 2005, de cada dez motoristas que se envolveram em acidentes, seis usavam algum tipo de estimulante.
O número de acidentes é grande em nosso País. São estatísticas alarmantes, que demonstram o quanto precisa ser feito com relação à segurança no trânsito do Brasil. Mas não podemos usar dois pesos e uma medida. Justiça seja feita! Na prática oftalmológica diária é muito comum o encaminhamento de pacientes considerados inaptos por não atingirem as marcas determinadas no exame oftalmológico para a habilitação de dirigir. Pessoas que precisam trabalhar e que tem sua renda vinculada ao ato de dirigir. Muitas vezes, através de exames mais minuciosos, percebemos que essas pessoas não imputem nenhum perigo no trânsito. Por isso, precisamos pedir aos órgãos competentes que a legislação seja mais realista e que tenha mais sensibilidade caso a caso. Afinal, não são restrições superficiais que irão melhorar o trânsito brasileiro. É preciso também, garantir a sinalização das estradas, a pavimentação adequada e a iluminação das vias públicas, que, em certos lugares, ofusca até quem tem ótima visão.
Falta de correção visual é epidêmica
Acidentes de trânsito são a segunda maior causa de morte violenta no Brasil. Respondem por mais de mil mortes ao dia de jovens com menos de 25 anos. Nos países ricos os motoristas predominam entre as vítimas de acidentes e nos mais pobres os pedestres, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas). Para reduzir a incidência, a ONU instituiu até 29 de abril a primeira semana mundial sobre o assunto com o tema “Juventude e Segurança Viária”.
De acordo com o oftalmologista do Instituto Penido Burnier, Leôncio Queiroz Neto, perito em medicina do trânsito e membro da ABRAMET (Associação Brasileira de Medicina do Tráfego) metade das pessoas que usam óculos não fazem a atualização regular das lentes e a visão responde por 95% de todas as informações necessárias para evitar acidentes.
Só para se ter uma idéia, o especialista diz que um motorista com visão perfeita trafegando a 90 km/hora necessita de 3,2 segundos para processar as informações de uma placa de sinalização rodoviária. Já para quem tem 66% de visão este tempo é reduzido para 2,5 segundos e quem tem 50% de acuidade visual (20/40 que é bem aceita na nossa legislação) tem 1,6 segundos para processar a mesma informação. Isso significa que quanto mais a vista é afetada, mais rápido tem de ser o reflexo do motorista. A miopia e o astigmatismo, ressalta, comprometem ainda mais o reflexo do motorista porque a noção de distância em relação aos outros veículos é maior do que a real. Além disso, manter o foco na estrada durante a noite, exige mais da musculatura ocular o que compromete a acomodação. Falar no celular, retocar a maquiagem, ouvir música alta ou conversar com o passageiro ao lado são situações corriqueiras que também diminuem o reflexo de quem dirige, afirma o médico. Como se isso não bastasse, é comum jovens dirigirem drogados ou alcoolizados.
Instabilidade da acuidade visual é maior entre jovens
Para Queiroz Neto a falta de atualização dos óculos está relacionada à exigência legislativa de renovação da carta de habilitação a cada 5 anos. Metade das pessoas só atualiza os óculos quando vai renovar a carta e, pelo menos, 35% não tem estabilização da acuidade visual, índice que chega a 60% entre os mais jovens, ressalta. A recomendação médica é passar por consulta oftálmica a cada dois anos para quem tem até 40 anos de idade e anualmente após os 40 anos porque além da vista cansada aumenta a probabilidade de surgirem doenças visuais relacionadas ao envelhecimento como glaucoma, catarata, entre outras.
Por isso, o especialista ressalta que além da acuidade visual o exame médico de habilitação deveria incluir avaliação do campo visual que pode ser afetado pelo glaucoma, toxoplasmose e neurite óptica, além da visão noturna que inclui a capacidade de recuperação do ofuscamento. A sensibilidade à luz chega a causar cegueira noturna, é mais comum entre pessoas de olhos claros e portadores de catarata. As dicas do médico para melhorar a visão no trânsito são:
· Usar lentes amarelas durante a noite para reduzir o ofuscamento.
· Manter as lentes oftálmicas atualizadas
· Dar preferência a lentes anti-reflexo e com proteção UV para prevenir a catarata
· Manter o pára-brisa limpo.
por Dr. Leôncio Queiroz Neto